sábado, 4 de julho de 2009

O sujeito

Sempre fui ótimo para memorizar datas, acontecimentos históricos e até mesmo as grades de programação, mas quando se trata de amigos a minha memória sempre foi uma tragédia.
Não se ofenda, meu caro amigo, caso um dia você me aborde pela rua e eu não o reconheça. Quantas vezes já cruzei com pessoas de quem, ao me encherem de beijos e abraços e me tratarem pelo apelido de infância, eu não sabia os nomes. Para não causar um constrangimento para ambas as partes, utilizava de todos os meios para que a conversa terminasse o mais rápido possível, antes que percebessem a minha "cara de tacho" e confirmassem a minha ignorância com a resposta da maldita pergunta: "Você se lembra de mim?"
Em uma destas quartas-feiras, ao voltar do curso de francês, acabei por topar com um sujeito que, devendo me conhecer, me tratou com certa intimidade:
_ Quanto mais velho, mais CDF fica...
Ao ouvir isto de alguém que supostamente não conhecia, acabei por enrugar a testa e apertar os olhos, fisionomia clássica de alguém que quer resgatar algo do abismo da consciência. Percebendo isto, fez a tal pergunta:
_ Gordinho, você não se lembra de mim mesmo, hein?
Até que a pergunta acabou por me dar um rumo, pois recebi este apelido no tempo de escola, mais precisamente na 6ª série. Mas como ainda não me lembrava do tal sujeito, fui sincero com ele:
_ Não me lembro mesmo, cara. De onde o conheço?
Esperando que respondesse minha pergunta ou falasse seu nome, disse que não falaria nem um nem outro, acabando por fazer uma pergunta que tempos atrás me deixaria em maus lençóis:
_ Tá se arrastando pela Sabrininha ainda?
" O cara me conhece mesmo", pensei. Para ele saber daquilo, ou soube por algum linguarudo filho da mãe ou tinha sido um grande amigo, pois conto nos dedos quem soube diretamente por mim daquela paixão de quinze anos não correspondida.
_ Já estou em outra faz tempo. Mas não vai dizer pelo menos seu nome?
Disse de novo que não iria revelar sua identidade. Como já não suportava aquela situação e estava louco para assistir a mais um desfile em campo do meu tricolor, acabei lhe dando um ultimato:
_ Não posso fingir que estou conversando com um conhecido se até agora você não passa de um estranho. Ou você diz seu nome ou me deixa ir curtir meu futebolzinho.
O pior de tudo é que, além de ver o meu São Paulo perder, não lembro do nome do sujeito até agora.