sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Livre Arbítrio

Estaria mentindo se dissesse que não a estava admirando. Encolhida em uma pequena escada de um casebre abandonado estava ela, iluminada pela fraca luz de uma fogueira, novamente a pensar na vida.

Já a observava desde minha chegada ao retiro. Enquanto que em algumas dinâmicas participava com muita alegria e descontração, em outras se retirava discretamente do salão e, ao passo em que todos se divertiam, voltava ela, seja sentada em uma cadeira ou mesmo no chão, a se isolar do mundo, trazendo para si pensamentos impossíveis de se deduzir, mas que, sem sombra de dúvidas, a deixava “em outros ares”.

Seus olhos castanhos, pequenos e expressivos, pareciam distantes, parados no tempo, sendo que sua boca amarronzada e de traços finos sequer se movia. Seus cabelos castanhos claros, que naquela noite estavam soltos e lhe caiam quase à altura de seus pequenos, porém firmes ombros, balançavam ao ritmo do vento, açoitando delicadamente seu rosto de pele morena, dando ao seu semblante aquele encanto que faz qualquer pessoa que a presencia se admirar.

Distante cerca de dez metros dela, estava eu a observá-la e a conversar com Giovanna, sendo que esta, ao perceber que estava a prestar mais atenção naquela pessoa no que na nossa conversa, disse, com tom chateado na voz:

_ Vai lá e fale com ela, não precisa fingir que está gostando da conversa.

Percebendo que ela se encontrava chateada diante de tal situação, tentei me explicar:

_ Desculpa Giovanna, é que há vinte minutos ela se sentou ali para pensar na vida e não voltou da viagem até agora! Parece que ela se trancou dentro do seu mundinho não quer sair de jeito nenhum.

O que mais me impressionou foi o fato de que, enquanto todos se confraternizavam após o luau, ela continuou ali, intacta, como se não houvesse nada em sua volta.

A minha vontade naquele momento era de conhecer seus sonhos, medos, objetivos, metas... Enfim, descobrir seus valores e princípios mais significativos, a fim de realmente entender o que acontecia em sua vida para, assim, desvendar o que se passava em sua mente.

Ciente de que só ficaria na vontade, cheguei à conclusão de que somente conheceria um pouco mais desta pessoa se prestasse mais atenção em suas partilhas. Mesmo com apenas 18 anos, suas palavras demonstravam maturidade, adquirida talvez por acontecimentos que deixaram marcas em sua vida, como o suicídio de seu tio que, como ela mesma disse, causa sofrimento até hoje em seus familiares, mas que, ao mesmo tempo, a faz fortalecer na fé e repensar, dia após dia, o valor que tem sua vida.

Posteriormente, conversando com ela pelo MSN - aliás, não sei por qual motivo ainda insisto em conversar por este meio – acabei propositadamente por tocar neste assunto, para tentar descobrir o porquê de tanto pensar. Como resposta, disse que às vezes lhe faz bem se isolar do mundo, sendo que destes momentos de solidão tem a oportunidade de se aproximar mais de Deus, motivo pelo qual prefere ficar só, sem ser incomodada

Quando comentei da minha vontade de tirar uma fotografia sua naquela situação, me pediu o favor de não registrá-la, alegando ser um momento só dela e por este motivo precisava de privacidade.

Não persisti, mas ao perguntar se poderia acompanhar seu momento de privacidade de longe, disse que seria impossível, afinal de contas, seu “sexto sentido” perceberia a aproximação de alguém, mas me deu uma espécie de “carta branca” ao dizer que não tinha nenhum poder sobre o livre arbítrio, tampouco o poder de proibir alguém de fazer alguma coisa, mesmo se fosse contra a sua vontade.

É claro que não irei contra o seu pedido, pois em seu lugar também sentiria a minha privacidade invadida. Ademais, o velho ditado popular há tempo diz que “com mulher marrenta não se mexe”. Mas, como ela mesma disse, ninguém tem controle sobre o livre arbítrio alheio, então aqui o estou exercendo, passando para o papel o que meus olhos fotografaram naquela fria noite de sábado, ficando sob sua responsabilidade, caro leitor, julgá-la.

Se ela irá gostar desta crônica? Bem, isto já não está sob a minha esfera.

Em relação aos seus pensamentos? Lamento informar que nada descobri, mas tenham a certeza de que há muito a ser desvendado por detrás daqueles óculos verdes.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

O que nem eu sei dizer

Ao vê-la, percebi que não era mais a mesma. Por mais que tentasse disfarçar, de uma forma ou de outra, a tristeza sempre vinha à tona. Até mesmo o seu sorriso, que ainda continuava sendo sua marca registrada, perdera um pouco de sua graça: como era bom ouvir a sua risada, e quando ela soltava uma gargalhada então... era lindo olhar só por olhar. Mas a fonte secara e aquele pequeno ato, que fazia encher a alma mais infeliz de alegria, acabou por murchar, e o espectador, que antes se revitalizava com aquele batismo de luz, ao se deparar com tamanha desgraça, se dava ao direito de perguntar, em tom de nostalgia: “quando irei voltar a ver aquele lindo sorriso?”
Por mais que dissesse que nunca mais o perdoaria, que dera a volta por cima e que parara de sofrer de saudade, ela sabia que seu coração ainda pertencia a ele, e que se o mesmo viesse a seus pés pedindo perdão, não resistiria e cairia novamente em seus braços, pois, por mais que negue, ainda o amava. E seu olhar, mergulhado em uma sombria melancolia, exprimia a esperança do eterno amor feminino, que confiava que um dia voltaria a ouvir de seu amado palavras que, talvez, nunca dera tanto valor enquanto juntos, mas que à época, só de lembrá-las, fazia seu peito arfar pela dor da saudade.
Sempre que ela se apresentava diante de mim com o rosto abatido e os lábios ressecados, obrigatoriamente vinham em minha mente célebres personagens femininas de nossa literatura - Clara dos Anjos, Luísa, Aurélia, entre outras - que, desprezadas pelos seus amados, trancavam-se em seus quartos e, abraçadas aos seus travesseiros, derramavam-se em prantos, fazendo correr junto de suas lágrimas recordações de um amor não tão distante que, aos seus olhos, parecia feliz e perfeito.
Quem hoje a vê percebe que, pouco a pouco, a alegria está voltando a fazer parte de sua vida: as maças de seu rosto se coraram, seus lábios carnudos se avermelharam e seu sorriso, ainda que discretamente, voltou a alimentar aqueles de dele necessitam. Se ainda o ama? Somente ela tem a resposta para tal pergunta; porém, do mesmo modo que o homem espera angustiado o gol salvador nos minutos finais de uma partida, a mulher também espera, mas uma nova chance de viver um novo (ou velho) amor.