segunda-feira, 31 de agosto de 2009

O bendito

Naquele dia não tive dúvida de qual camisa iria vestir. De seda azul e repleta de pequenos sulcos que lhe dão uma aparência amassada, nunca tive dúvidas de que é a peça mais bela de meu guarda-roupa. Mas tinha um problema: um de seus botões estava para cair, e, para meu azar, era o primeiro.
Ao ver o botão pendurado à camisa, minha mãe, como sempre, já deu o alerta:
_ Wagner, olha que esse botão vai acabar caindo pela rua!
_ Cai não, cai não. Até que ele tá firme na camisa!
Sabia muito bem que o botão estava “mais pra lá do que pra cá”, mas como fazia muito tempo que não usava aquela camisa e como a vaidade falava mais alto, acabei por arriscar: apertei a linha com os dentes, a abotoei com todo o cuidado e parti para o trabalho de cabeça baixa, não por desânimo, mas para garantir que aquele bendito botão não ficaria pelo caminho.
Ao chegar no escritório, fiz aquele ritual que todo sujeito que trabalha em escritório faz: ligar o computador, colocar as papeladas em seu devido lugar, verificar os e-mails..., enfim, aqueles costumes corriqueiros que, por mais simples que sejam, fazemos questão de prolongar ao máximo com o intuito de retardar o serviço. Como cada um tem seu ritual em particular, na minha pauta de rituais também encontra-se o de ir ao banheiro. E naquele dia não foi diferente.
Enquanto lavava minhas mãos, percebi diante do espelho da toalete que o primeiro botão estava aberto. Não estava vulgar, ficou até um pouco sensual - ‘pareço um cigano’, pensei - mas era um visual incompatível com o ambiente. Ao tentar abotoar a camisa, caiu a moeda: Cadê o botão?
Saí do banheiro de forma estabanada. Mesmo consciente de que o botão tinha caído pela rua, procurei em todos os cantos do escritório - até na lata de lixo. Ao me ver atordoado, a Graça, secretária do escritório, me perguntou:
_ O que aconteceu, Wagner?
_ Nada, Graça, nada. Só perdi um botão da camisa. Se você achar me avisa, OK?
_Desesperado por um botão de camisa? Credo!
Para quem viu meu desespero por um mero botão de camisa, com certeza achou um exagero de minha parte, creio que qualquer um acharia, mas fui tão ridicularizado durante minha adolescência que hoje tenho pavor ao ridículo, independente do tamanho do mico: seja um “toco” ou um pêlo indesejável no nariz. E, neste caso, encontrar o tal botão era questão de honra.
Enquanto procurava o bendito, o telefone de minha mesa tocou. Era a Graça:
_ O doutor mandou você ver alguns processos no fórum.
E como ia falar “não”? Meu medo de as pessoas descobrirem a falta do bendito botão era tanto que parecia uma carmelita: apertei aquela papelada junto ao peito e fui tão rápido que quando dei por mim já estava na porta do fórum.
Mas, pelo visto, de nada adiantou: um risinho daqui, um cochicho dali, e todos olhando de soslaio em minha direção. Até o Edi, escrivão do Cartório de Execuções, tirou uma casquinha: ficou olhando para baixo como se quisesse me alertar de alguma coisa .
“ Filho da mãe de botão”, pensei.
Naquele momento o bendito botão virou maldito e a única coisa que eu queria era que chegasse a hora do almoço para trocar a tal camisa.
Ao chegar ao escritório, uma boa notícia: a Graça acabou por achá-lo. Estava no meio do teclado do computador. Deve ter caído enquanto fazia o ritual de acessar o Orkut.
_ Ai, Graça, valeu! Você não sabe o mico que passei no fórum por causa desta porcaria. Cheguei lá e...
Quando ia começar a falar, ela me cortou:
_Tá bom, Wagner, tá bom. Mas antes de começar, feche a braguilha.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Quando uma Madona chora...

Os grandes renascentistas tentaram, em várias de suas obras, retratar Madona e seu filho da forma mais humana possível. Missão sem êxito, pois cada um destes pintores, ao seu estilo e graça, criou figura de tamanha beleza que, entre traços perfeitos e leves pinceladas, fica a apreciar o filho ainda pequeno,que, trinta e três anos mais tarde, se transformaria em um dos maiores mártires da história.
A minha obsessão por estas obras sempre foi imensa – Madona das Rochas, Madona Sistina, Madona no Prado, Madona Del Granduca, entre outras – mas sempre me perguntando por que nunca a retrataram no momento mais crítico de sua vida. Michelangelo tentou retratar sua angústia em Pietá, mas – quem sou eu para isto dizer - ficou onge de mostrar o verdadeiro desespero de uma mãe que, impotente ao ver seu filho açoitado e crucificado, cujo único consolo era saber que tudo aquilo não passava da vontade do Pai.
Como nenhuma destas obras saciaram meu desejo, sempre imaginei Maria, diante daquela situação, refém de um sofrimento tão grande, tão intenso, que seria capaz de transformar sua face bondosa e santa em um poço de sofrimento e rancor. Imaginava-a caída em dolorosas lágrimas, vítima da insanidade humana para com seu filho.
Ao participar de um retiro católico, presenciei uma amiga a fazer o papel de Nossa Senhora. Com sua pele cor de porcelana, longos cabelos ruivos, dona de um rosto sereno, tendo seu corpo coberto por uma veste azul e branca, pronta para receber qualquer um de braços abertos, fiquei encantado, não pela sua beleza de mulher, mas sim pela sua semelhança com as Madonas do Renascimento. Impossível não se emocionar e, mesmo não me dedicando muito a religião, confesso que, até ela ter-se retirado do salão, a fitei, posso assim dizer, com olhos de devoto.
Este momento passou e esta mesma amiga me convenceu a participar de outro retiro, porém mais denso que o primeiro. Ao chegar a hora do almoço, uma surpresa: se quiséssemos comer, teríamos que implorar. Segundo o método, só assim daríamos valor às pessoas mais humildes e, ao mesmo tempo, aprenderíamos o que é humildade. Não achei tão necessário aquilo, mas estava por volta das duas horas da tarde e, prevendo que só sairia daquele lugar por volta das oito da noite, de duas uma: ou comeria ou desmaiaria de fome. Preferi a primeira opção.
Algumas pessoas, ao se humilharem, não agüentaram e, ao serem ‘ofendidas’ pelos ‘atores’ do retiro, se entregaram aos prantos. Esta amiga estava entre elas.
Ao vê-la em lágrimas, percebi como perdi tempo em imaginar Maria refém do desespero. Lembrei-me dela naquele salão, coberta por aquelas vestes, de braços abertos, de rosto sereno; mesmo diante daquela situação, o desespero não a transfigurou e a serenidade ainda estava em seu rosto.
Há pessoas que, como Maria, diante das maiores crueldades – seja ao ver seu filho morto, ou ao se sujeitarem a viver indignamente, mesmo que seja por um curto tempo - em vez de o sofrimento as transformar, as tornam mais belas. Portadoras de uma beleza extraordinária, encantam qualquer pessoa que presenciem suas agonias.
O mal destas Madonas é que, por mais que tentemos convencê-las, não sabem que, quando choram, são dotadas de grande, porém cruel, beleza.