Naquele dia não tive dúvida de qual camisa iria vestir. De seda azul e repleta de pequenos sulcos que lhe dão uma aparência amassada, nunca tive dúvidas de que é a peça mais bela de meu guarda-roupa. Mas tinha um problema: um de seus botões estava para cair, e, para meu azar, era o primeiro.
Ao ver o botão pendurado à camisa, minha mãe, como sempre, já deu o alerta:
_ Wagner, olha que esse botão vai acabar caindo pela rua!
_ Cai não, cai não. Até que ele tá firme na camisa!
Sabia muito bem que o botão estava “mais pra lá do que pra cá”, mas como fazia muito tempo que não usava aquela camisa e como a vaidade falava mais alto, acabei por arriscar: apertei a linha com os dentes, a abotoei com todo o cuidado e parti para o trabalho de cabeça baixa, não por desânimo, mas para garantir que aquele bendito botão não ficaria pelo caminho.
Ao chegar no escritório, fiz aquele ritual que todo sujeito que trabalha em escritório faz: ligar o computador, colocar as papeladas em seu devido lugar, verificar os e-mails..., enfim, aqueles costumes corriqueiros que, por mais simples que sejam, fazemos questão de prolongar ao máximo com o intuito de retardar o serviço. Como cada um tem seu ritual em particular, na minha pauta de rituais também encontra-se o de ir ao banheiro. E naquele dia não foi diferente.
Enquanto lavava minhas mãos, percebi diante do espelho da toalete que o primeiro botão estava aberto. Não estava vulgar, ficou até um pouco sensual - ‘pareço um cigano’, pensei - mas era um visual incompatível com o ambiente. Ao tentar abotoar a camisa, caiu a moeda: Cadê o botão?
Saí do banheiro de forma estabanada. Mesmo consciente de que o botão tinha caído pela rua, procurei em todos os cantos do escritório - até na lata de lixo. Ao me ver atordoado, a Graça, secretária do escritório, me perguntou:
_ O que aconteceu, Wagner?
_ Nada, Graça, nada. Só perdi um botão da camisa. Se você achar me avisa, OK?
_Desesperado por um botão de camisa? Credo!
Para quem viu meu desespero por um mero botão de camisa, com certeza achou um exagero de minha parte, creio que qualquer um acharia, mas fui tão ridicularizado durante minha adolescência que hoje tenho pavor ao ridículo, independente do tamanho do mico: seja um “toco” ou um pêlo indesejável no nariz. E, neste caso, encontrar o tal botão era questão de honra.
Enquanto procurava o bendito, o telefone de minha mesa tocou. Era a Graça:
_ O doutor mandou você ver alguns processos no fórum.
E como ia falar “não”? Meu medo de as pessoas descobrirem a falta do bendito botão era tanto que parecia uma carmelita: apertei aquela papelada junto ao peito e fui tão rápido que quando dei por mim já estava na porta do fórum.
Mas, pelo visto, de nada adiantou: um risinho daqui, um cochicho dali, e todos olhando de soslaio em minha direção. Até o Edi, escrivão do Cartório de Execuções, tirou uma casquinha: ficou olhando para baixo como se quisesse me alertar de alguma coisa .
“ Filho da mãe de botão”, pensei.
Naquele momento o bendito botão virou maldito e a única coisa que eu queria era que chegasse a hora do almoço para trocar a tal camisa.
Ao chegar ao escritório, uma boa notícia: a Graça acabou por achá-lo. Estava no meio do teclado do computador. Deve ter caído enquanto fazia o ritual de acessar o Orkut.
_ Ai, Graça, valeu! Você não sabe o mico que passei no fórum por causa desta porcaria. Cheguei lá e...
Quando ia começar a falar, ela me cortou:
_Tá bom, Wagner, tá bom. Mas antes de começar, feche a braguilha.
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