sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Paola

Paola não se continha de tanta ansiedade. Após anos defendendo pequenas causas no interior, finalmente chegara a sua vez: um fazendeiro da região, que conheceu por acaso em uma das reuniões do condomínio, a contratou para defendê-lo de um processo-crime que, para sua alegria, se encontrava em São Paulo.
Nunca tinha defendido uma causa no tribunal. Na verdade, só o visitou uma vez, quando ainda cursava a faculdade. Naquela ocasião teve muito cuidado ao escolher o que vestir, porém não havia comprado nenhuma peça de roupa nova - chegou até mesmo a emprestar os sapatos de sua mãe - mas desta fez queria que fosse diferente: decidiu que compraria uma roupa de corte clássico, porém ousado. Ao ir ao shopping para comprar tal roupa, apaixonou-se por um blazer preto provido de um enorme decote, cujo corte, além de mostrar todo o colo, terminava junto ao umbigo, mostrando tudo - ou quase tudo - a quem tivesse olhos para ver. Com certeza, mulher alguma passaria despercebida com tamanha sensualidade.
Ao perceber isto, Paola tratou logo de experimentá-lo.
_ Uma verdadeira perua! Mas esta sua barriguinha, sei não... - disse sua mãe, enquanto via sua filha encolher a barriga para abotoá-lo.
_ Acho que um regime de duas semanas dá conta do recado.
_ Deixa mãe, deixa. Você está linda Paola! Com certeza os juízes vão se apaixonar pelos seus seios! - disse Miguel, seu irmão mais novo que, sem nenhuma cerimônia, acabou por invadir o trocador feminino.
Após duas semanas e três quilos milagrosamente perdidos, lá se foi Paola, às seis da manhã, para São Paulo acompanhada de Miguel que, além de lhe servir de motorista - pois estava muito nervosa para dirigir - aconselhou-a, de forma bem profissional como conquistar a confiança dos magistrados:
_ Quando chegar lá paquere todos e sorria. E use e abuse desse decote. Se você não ganhar pela lei, ele ganha por você!
Ao chegar ao tribunal, percebeu que todos tinham os olhos voltados à sua pessoa. Sabia que seu decote era ousado demais para ser usado em um ambiente tão formal como aquele, mas não tinha previsto que tal roupa causaria tamanho rebuliço. Ouviu até uma conversa entre duas senhoras a dizer que seu vestido nem de longo parecia de uma advogada, mas sim de “cafetina da Rua Augusta”.
“Despeitadas” - pensou.
Ao chegar a Secretaria, uma má notícia: foi informada de que teria de esperar, pois seu caso seria o último a ser julgado. Além disto, não gostou do que ouviu em seguida:
_ Doutora, a senhora não pode se apresentar ao julgamento com esta roupa.
_ Mas qual o motivo? - disse Paola, vermelha de vergonha - Estou vestida formalmente, como manda o tribunal.
_ Ah, doutora! Por acaso não se olhou no espelho hoje? E este decote aí? Dá para ver tudo!
Ao perceber o tom irônico com que falou o funcionário, Paola acabou por se irritar:
_ Isto aqui não é um blazer? - disse, agora com o rosto todo rubro de raiva.
_ Sim, mas...
_ Então que malícia é essa? Por acaso é meu marido para opinar como devo me vestir? Nem se fosse! - e apontando para o decote - Se eu tenho, eu mostro! O blazer é meu, o corpo é meu, o problema é meu! Não preciso de homem para falar o que é melhor para mim! Aliás...
Antes que o público notasse a baixaria, o funcionário acabou por se render:
_ Perdão pela minha indelicadeza doutora. Não discutamos mais. Só aguarde que logo irei anunciá-la ao senhor desembargador, tudo bem?
“Tão bonita e tão barraqueira!” - pensou - “ E pensar que nós, homens, gostamos deste tipo de mulheres!”
Quando já estava a dormir em uma das cadeiras aveludadas do saguão, seu caso começou a ser discutido, sendo que, ao ser acordada pelo mesmo funcionário com que discutira horas atrás, levantou-se de impulso, não porque despertou do sono, mas porque ocorreu um desastre que em hipótese alguma poderia acontecer naquele momento.
Esquecera tudo! Todas as palavras, todos os gestos, até mesmo os olhares, os ‘biquinhos’ que tanto ensaiou na frente do espelho apagaram-se de sua memória.
Desesperada, Paola não tinha idéia do que fazer. Até que, como uma luz no fim do túnel, surgiu a idéia de ligar para seu irmão que, em vez de apoiá-la naquele momento importante de sua vida, preferiu viajar de metrô, pois, mesmo sendo também um advogado - recém-formado, diga-se de passagem - não suportava ambientes formais e, segundo ele, “se equilibrar na porta do trem e sentir o cheiro do povão, não tem preço”.
_ Paola, vai ter que me esperar! Estou na Corinthians-Itaquera e levei uma hora pra chegar aqui. Nem lembro onde estacionei o carro, acredita?
_ Irresponsável! Sorte sua que vai começar agora o julgamento!
_ Então por que você ligou?
_ É porque me esqueci de tudo!
_Mas como assim, se esqueceu?
Depois de deixar sua irmã falar seu drama e após um tempo de silêncio, Miguel surgiu com a sua idéia:
_ Abusa do decote!
_Eu não vou me aproveitar do decote para paquerar desembargador nenhum! Você acha que eu tenho cara do que: de perua?
_ Ou você paquera, ou perde o processo! Vai lá e manda a ver!
_ Atrevido!
Ao desligar o celular na cara do irmão, percebeu que praticamente não tinha saída: ou se aproveitava do tal decote para ver no que daria ou pagaria um mico de tamanha grandeza que nunca mais ousaria botar os pés naquele lugar. Decidiu pela primeira opção: retocou a maquiagem, ajeitou o decote e para realçá-lo ainda mais, estufou o peito.
Ao entrar na sala de julgamentos, o nervosismo passou. Mesmo não sabendo patavina do que falar, durante todo este tempo nunca esteve tão confiante em seu taco como naquele momento. Tudo corria bem, até que, enquanto se preparava para o ‘flerte’, seu sapato ficou preso no grosso tapete vermelho, espatifando-se toda no chão.
Enquanto Paola, ainda caída no chão, se engasgava com os próprios cabelos, os seguranças rapidamente foram em sua direção oferecer ajuda. Mas, percebendo isto, Paola levantou-se de impulso e vendo que o os papéis que trazia se espalharam por toda a sala, soltou um pequeno suspiro e começou a pegar um por um, soltando murmúrios indecifráveis aos ouvidos dos presentes.
Naquele momento sentiu um ódio tão grande de seu irmão que, sem sombra de dúvidas, o cobriria de bofetadas caso estivesse em sua frente. Só não o mataria porque era cristã demais e não queria sua passagem carimbada para o inferno.
Após passar por tal constrangimento, Paola não tinha cabeça para defender ninguém, muito menos para seduzir. Até que tentou ‘mostrar suas qualidades’ para os julgadores, mas percebeu que nenhum deles lhes dava atenção. Teve até a impressão de que um deles tirava um cochilo enquanto se apresentava.
Além de ter perdido o processo, teve que atravessar todo o prédio descalça, já que seu salto tinha quebrado, não mais passando a ouvir comentários sobre seu decote, mas sim sobre o ‘mico’ que passou no julgamento.
Ao chegar à portaria, seu irmão, após duas horas e vários estacionamentos percorridos, lá estava à sua espera. Ao vê-lo, ‘fuzilou’:
_ Idiota! Fui seguir o seu conselho e olha no que deu! Passei o maior vexame de minha vida!
Após contar do tombo, seu irmão, cínico como sempre, começou a rir:
_ Do que você está rindo, seu idiota?
_ Eu falei pra você colocar silicone! Isso aí não seduz ninguém! Quem sabe na próxima, com uma prótese de duzentos em cada um, você...
_ Idiota e machista!
Antes que perdesse o controle de vez, entrou no carro sem dar mais uma palavra. Como Paola ainda fazia dieta e estava feliz com seu corpo, Miguel perguntou-lhe se queria jantar em algum restaurante vegetariano. Disse que queria comer algo diferente. Após entrarem em uma praça de alimentação de um shopping, achou um lugar que finalmente lhe agradou: um fast-food.