Os grandes renascentistas tentaram, em várias de suas obras, retratar Madona e seu filho da forma mais humana possível. Missão sem êxito, pois cada um destes pintores, ao seu estilo e graça, criou figura de tamanha beleza que, entre traços perfeitos e leves pinceladas, fica a apreciar o filho ainda pequeno,que, trinta e três anos mais tarde, se transformaria em um dos maiores mártires da história.
A minha obsessão por estas obras sempre foi imensa – Madona das Rochas, Madona Sistina, Madona no Prado, Madona Del Granduca, entre outras – mas sempre me perguntando por que nunca a retrataram no momento mais crítico de sua vida. Michelangelo tentou retratar sua angústia em Pietá, mas – quem sou eu para isto dizer - ficou onge de mostrar o verdadeiro desespero de uma mãe que, impotente ao ver seu filho açoitado e crucificado, cujo único consolo era saber que tudo aquilo não passava da vontade do Pai.
Como nenhuma destas obras saciaram meu desejo, sempre imaginei Maria, diante daquela situação, refém de um sofrimento tão grande, tão intenso, que seria capaz de transformar sua face bondosa e santa em um poço de sofrimento e rancor. Imaginava-a caída em dolorosas lágrimas, vítima da insanidade humana para com seu filho.
Ao participar de um retiro católico, presenciei uma amiga a fazer o papel de Nossa Senhora. Com sua pele cor de porcelana, longos cabelos ruivos, dona de um rosto sereno, tendo seu corpo coberto por uma veste azul e branca, pronta para receber qualquer um de braços abertos, fiquei encantado, não pela sua beleza de mulher, mas sim pela sua semelhança com as Madonas do Renascimento. Impossível não se emocionar e, mesmo não me dedicando muito a religião, confesso que, até ela ter-se retirado do salão, a fitei, posso assim dizer, com olhos de devoto.
Este momento passou e esta mesma amiga me convenceu a participar de outro retiro, porém mais denso que o primeiro. Ao chegar a hora do almoço, uma surpresa: se quiséssemos comer, teríamos que implorar. Segundo o método, só assim daríamos valor às pessoas mais humildes e, ao mesmo tempo, aprenderíamos o que é humildade. Não achei tão necessário aquilo, mas estava por volta das duas horas da tarde e, prevendo que só sairia daquele lugar por volta das oito da noite, de duas uma: ou comeria ou desmaiaria de fome. Preferi a primeira opção.
Algumas pessoas, ao se humilharem, não agüentaram e, ao serem ‘ofendidas’ pelos ‘atores’ do retiro, se entregaram aos prantos. Esta amiga estava entre elas.
Ao vê-la em lágrimas, percebi como perdi tempo em imaginar Maria refém do desespero. Lembrei-me dela naquele salão, coberta por aquelas vestes, de braços abertos, de rosto sereno; mesmo diante daquela situação, o desespero não a transfigurou e a serenidade ainda estava em seu rosto.
Há pessoas que, como Maria, diante das maiores crueldades – seja ao ver seu filho morto, ou ao se sujeitarem a viver indignamente, mesmo que seja por um curto tempo - em vez de o sofrimento as transformar, as tornam mais belas. Portadoras de uma beleza extraordinária, encantam qualquer pessoa que presenciem suas agonias.
O mal destas Madonas é que, por mais que tentemos convencê-las, não sabem que, quando choram, são dotadas de grande, porém cruel, beleza.
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ResponderExcluirQue coisa mais linda!! Como não me emocionar diante de palavras tão belas e cheias de sabedoria. Mais uma vez você arrazou no texto, na organização das palavras e frases marcadas para a eternidade, vindas do seu coração, que quer aprender a ser melhor, eu sinto. Fiquei muito feliz de te ver no Crescimento, ver que você cumpriu mais esta etapa da sua vida de cabeça erguida e olhos atentos às ordens de Deus. Fico feliz em ver sua fé amadurecendo e presenciar Deus te usando, como neste texto tão lindo. Confesso que fiquei com vontade de copiar e colar no meu blog (rsrs). Assim como Jesus e Maria tocaram em mim para que tudo parecesse real naquele dia no salão da Aldeia, assim Ele tocou em você sobre estas palavras. Continue admirando Nossa Senhora como ela merece, porque com certeza, ela olha por você. Adorei o texto, mesmo de verdade. Você mora no meu coração..beijo.
ResponderExcluir"Peça à Mãe que o Filho atende", nunca se esqueça!